O futuro dos tablets

O lançamento do iPad pela Apple em 2010 criou, praticamente da noite para o dia, uma nova categoria de produto que tomou de assalto o mercado da informática. Mas o êxito instantâneo dos tablets, potenciado pela assimilação do formato por parte dos equipamentos baseados em Android – sobretudo após o lançamento em 2011 da versão 3.0 Honeycomb – não surgiu sem vítimas: o PC, diziam-nos, tinha os dias contados.

Fui dos que nunca percebeu muito bem como é que um dispositivo criado assumidamente para consumir conteúdos poderia substituir equipamentos cujo objetivo consistia em criá-los. Mas não devemos nunca deixar que a realidade se interpunha entre nós e uma boa história…

E, para sermos sinceros, o mercado dos PCs sofreu realmente com a introdução dos tablets. De repente, era possível vermos gráficos de linhas (nada como um bom gráfico para convencer a audiência!) que mostravam uma relação inversamente proporcional entre as vendas de tablets em crescendo e as vendas de PCs a cair. O futuro? Fácil: bastava continuar a puxar ambas as linhas na direção para a qual apontam e, dentro de (poucos) anos, garantiam-nos, o PC está morto.

A morte… do netbook

E, realmente, houve vítimas mortais. De forma fulminante, o netbook morreu. Acontece porém que este tipo de PC não só foi o único a morrer às mãos do mais popular e sexy tablet, como a sua morte era inevitável.

O formato, inventado pela Asus com o seu EeePC original em 2007, foi também ele pensado para o consumo de conteúdos. O netbook, diziam-nos, não se destinava a substituir nenhum outro tipo de PC mas sim a complementá-lo; a ideia não era ter uma máquina para criar grandes textos ou correr enormes folhas de cálculo, mas sim para navegar na Web, consultar o email e pouco mais. Ou seja, exatamente aquilo para o qual o tablet foi criado!

A razão pela qual os tais gráficos mostravam uma correlação inversa perfeita entre vendas de tablets e queda de vendas de PCs é que estes PCs eram na verdade, na maioria dos casos, netbooks – o produto que o tablet veio substituir.

O problema com os cálculos dos mais pessimistas (ou otimistas, consoante o ponto de vista) é que no mundo da informática é extremamente arriscado realizar projeções a longo prazo; o mercado muda demasiado depressa e o que é hoje verdade deixa de o ser amanhã. Basta que para tal surja um produto que mude as regras do jogo – tal como o tablet o fez.

O efeito “phablet”…

E, neste caso, esse produto chama-se “phablet” (phone+tablet). O pioneiro Samsung Note, lançado em 2011 na IFA com um ecrã de 5,3’’, recolheu quantidades idênticas de indiferença e críticas negativas (“demasiado grande para ser prático como telefone e demasiado pequeno para fazer sentido como um tablet”, garantiam-nos) sendo poucos os que na imprensa se mostraram realmente entusiasmados com a proposta, mas o público gostou e acabou por determinar uma tendência no mercado que alterou – novamente – as regras do jogo.

O efeito do Samsung Note não funcionou da mesma forma que o Apple iPad. Enquanto o último foi um sucesso instantâneo, o primeiro valeu sobretudo pelo que representa e pela tendência criada, mais do que pelo seu próprio êxito comercial.

O que o Note fez foi abrir as portas para a tendência – que ainda se mantém – de smartphones com ecrãs cada vez maiores. E os dados do mercado indiciam que foi esta apetência por equipamentos móveis com ecrãs de grandes dimensões uma das responsáveis pela erosão da quota de mercado da Apple.

É evidente que, da mesma forma que o Windows, depois de representar mais de 90% do mercado mundial de PCs, só podia perder quota de mercado, também o iPhone dificilmente conseguiria segurar a sua posição hegemónica, obtida quer por mérito próprio quer pela lenta reação do mercado.

Mas estou convencido de que, tanto ou mais do que o baixo preço dos terminais Android, foi a possibilidade de escolha entre inúmeros modelos de smartphones com ecrãs de grandes dimensões que permitiu a rápida ascensão dos equipamentos com o sistema operativo da Google.

… e a morte anunciada do tablet

Num mercado em que um smartphone com ecrã de 5’’ já é considerado normal e o termo “phablet” caiu em desuso (o ecrã de 5,5’’ do iPhone 6 Plus é maior que o do Samsung Note original!), não é o PC que está em risco de desaparecer: é o tablet.

O primeiro sinal de alarme surgiu no início de 2014, quando foram conhecidos os números referentes ao ano anterior. Já em 2013 era claro que o crescimento dos tablets estava a desacelerar e que, depois da hecatombe dos netbooks, o mercado dos PCs dava sinais claros de recuperação.

O que as análises aos números demonstravam é que não só ritmo de adoção dos tablets estava a ser muito mais lento do que o inicialmente esperado – ainda por cima tão pouco tempo depois da introdução do novo formato – como também o ritmo dos upgrades de equipamentos era muito menor do que, por exemplo, no mundo dos PCs.

Esta realidade parecia ser o resultado da conjugação de dois fatores: algum desencanto dos utilizadores, a quem tinha sido vendida a ideia de que o tablet podia substituir todos os outros equipamentos da sua vida digital; e a ideia de que um upgrade para um novo tablet não trazia grandes vantagens sobre o produto que já se possuía.

A chegada dos números referentes a 2014 permite-nos já tirar conclusões mais concretas. Confirma-se a tendência para uma forte desaceleração do crescimento dos tablets, a venda de PCs recupera de forma muito clara e… as vendas de smartphones com ecrãs de formato igual ou superior a 5’’ dispara de forma explosiva.

E é neste último ponto que se joga o futuro dos tablets. Inicialmente, o tablet andava connosco como complemento ou até mesmo substituto do notebook. Contudo, se temos também no bolso um smartphone de 5,5’’ ou até mesmo de 6’’, fará ainda sentido carregarmos também um tablet?

Na prática, um smartphone faz tudo o que precisamos e ainda mais – porque são o nosso principal dispositivo de comunicação e porque as suas câmaras digitais são vastamente superiores às dos tablets (e já nem falo na figura ridícula que fazem os utilizadores destes quando os empunham para tirar fotos…). Para milhões de utilizadores que não conseguem passar sem o seu smartphone no bolso, o tablet deixou de fazer sentido.

De repente, o nosso mundo digital clarificou-se novamente: temos o notebook (o PC, o Mac) para criarmos conteúdos, para trabalhar; e temos o smartphone para tudo o resto.

O tablet poderá ainda encontrar o seu lugar como máquina de jogos barata para os membros mais novos da família, como controlo remoto do equipamento audiovisual, como leitor de e-books… Mas o que não será é o dispositivo que substituirá o PC porque, em tudo o resto, já foi ele próprio substituído.

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