Será a Apple de 2014 a Apple de Tim Cook?

Muitas foram as notícias da Apple este ano. Muitas foram as surpresas, positivas como negativas. A gigante de Cupertino conseguiu como todos os anos o melhor e o pior, desde grandes lançamentos como o iPhone 6 e o iPhone 6 Plus, à apresentação de novas categorias de produtos com o Apple Watch e de novos serviços como o Apple Pay, até a falhanços como foram por exemplo o lançamento de software inacabado como foi o caso do iOS 8.1.1. Este artigo serve não só como uma reflexão sobre a nova Apple como uma retrospetiva do ano que hoje termina.

Este ano vimos a transformação de uma empresa deixando definitivamente o passado, libertando-se da liderança de Steve Jobs, com o espírito e as suas ideias bem presentes. 2014 foi sem dúvida o ano que marca a passagem da velha Apple para a nova Apple. O ano em que Tim Cook conseguiu finalmente distanciar-se de Jobs e colocar o seu cunho pessoal na empresa que agora lidera.

Tim Cook conseguiu finalmente colocar em prática a frase que Steve Jobs lhe disse no dia em que lhe passou a liderança da Apple: “Não faças as coisas pensando como é que eu as faria, faz da maneira certa!”.

WWDC

A WWDC marcou a estreia dos eventos da Apple em 2014. Esperava-se que a gigante de Cupertino apresenta-se novos produtos ainda durante os primeiros meses do ano mas tal não aconteceu. A WWDC marca, portanto, a mudança da Apple. Tal verificou-se logo à partida no palco. O modelo de Jobs era simples, apresentar os novos produtos, fazer uma pequena demonstração, dar as especificações e por fim os vídeos, no novo modelo, Tim Cook inverteu o ciclo, começa por dar as novidades no que toca à Apple em si e em seguida distribui entre Phil Schiller (vice-presidente marketing mundial) e Craig Federighi (vice-presidente engenharia de software) a restante apresentação. Começamos com um vídeo de introdução, depois a apresentação do produto e por fim a demonstração e a especificações técnicas. Com isto as apresentações perderam um pouco do campo de distorção da realidade de Jobs mas tal já era de prever e a Apple colmatou muito bem isso com o novo modelo.

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OS X Yosemite

O primeiro ponto da WWDC foi a nova versão do OS X e aqui começaram logo as novidades. Desde o novo design muito inspirado no iOS 7 apresentado em 2013 com uma mudança profunda no que era até então o OS X. A nova versão do sistema operativo da Apple discarta por completo a anterior interface “Aqua”, muito típica da liderança de Jobs, e a fonte Lucida Grande. Uma década depois, vemos o nascimento de uma nova linguagem visual para o OS X. Temos ainda uma mudança de estratégia, até aqui o Mac servia como ponto central de todos os dispositivos, era com um hub onde todos os outros vão beber a informação. Com o Continuity o Mac é mais um dispositivo que completa a ligação entre o iPhone, o iPad e o Mac. Nenhum serve nenhum, os três tirando partido das melhores características dos outros dois funcionando em conjunto.

iOS 8

O iOS 8 marca também uma viragem. Esta nova versão do sistema operativo móvel da Apple vem com novas funcionalidades que com Steve Jobs não seriam possíveis. Desde os teclados de terceiros, aos widgets até às funcionalidades extra das aplicações que marcaram uma revolução de Tim Cook. Não só o iOS ficou mais completo como de certa forma conseguiu abrir novas possibilidades aos programadores. De referir também o Continuity e o Handoff que embora tivessem só sido apresentados agora deveriam estar em estudo já há algum tempo, quem sabe ainda com a liderança de Jobs.

Programadores

Os programadores tiveram uma apresentação em cheio. Tim Cook conseguiu impor a sua marca e o evento de Junho marca a transformação da empresa para os programadores. Para além de um sistema operativo móvel mais aberto e com mais API’s para trabalhar foram também introduzidas mudanças na App Store como os bundles e a Partilha entre Família.

Evento Setembro

O evento de Setembro é sem dúvida o evento que marca a mudança da Apple. Podemos mesmo dizer que este foi dos eventos mais importantes da história da Apple depois do evento de janeiro de 1984 onde foi apresentado o primeiro Mac, o evento de maio de 1998 onde foi apresentado o iMac, o evento de outubro 2001 onde foi apresentado o primeiro iPod e claro o de janeiro de 2007 onde foi apresentado o primeiro iPhone. O evento foi não só marcante pela apresentação do Apple Watch como pela entrada da Apple em novos mercados. Foi a confirmação da entrada na era Cook. Steve Jobs dizia muitas vezes que os clientes não sabem o que querem até lhes mostrarmos, Cook respeita esta visão mas segue uma filosofia de interferência na Apple do mercado, “pergunta-mos às pessoas do que querem mas fazer as coisas à nossa maneira.”.

iPhone 6 e iPhone 6 Plus

O iPhone 6 e iPhone 6 Plus marca a mudança do iPhone também. Steve Jobs negou durante muitos anos ao mercado iPhone’s de maiores dimensões. Steve Jobs seguia a filosofia que o ecrã tinha que ter o tamanho ideal para podermos tocar com o polegar no canto superior do iPhone. Mas não foi esta a única mudança, outra mudança no produto mais vendido da gigante de Cupertino já tinha sido presença também em 2013. Neste evento tal como na apresentação do iPhone 5s e iPhone 5c tivemos a presença de não um mas dois modelos de iPhone. Tal como noutros produtos Tim Cook distancia-se da filosofia de Steve Jobs de mostrar ao mercado o que quer, Cook mais uma vez ouve o mercado e depois faz as coisas à sua maneira.

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Apple Watch

O Apple Watch faz parte da revolução de Tim Cook na Apple, embora se compreenda que resulta do trabalho de vários anos ainda com Steve Jobs contudo a fase final (crucial nos projetos) foi comandada por Tim Cook. Este é sem dúvida o produto que marca a revolução de Cook. Pouco mais há a dizer sobre o produto uma vez que ainda está em fase final de desenvolvimento. É sem dúvida um dos grandes pontos para os primeiros meses de 2015 da Apple.

O primeiro desafio do mercado será a logística, será também o teste de fogo de Angela Ahrendts, nova vice-presidente das lojas da Apple. Serão algumas noites perdidas para criar a fórmula ideal, porque não será um produto tão direto como o iPhone ou os Macs. A gigante de Cupertino posicionou o seu wearable num setor mais vocacionado para a moda o que será um problema quando pensamos nos milhares de combinações possíveis para o Apple Watch. São três linhas de relógios, duas opções de tamanhos, 3 opções de cores e mais de 4 opções de pulseiras.

O segundo e ainda maior desafio será a bateria. Não só a autonomia mas a forma como o produto se recarrega. O ideal será uma bateria de tamanho pequeno, que dure pelo menos uma semana e sem a necessidade de tirar o aparelho do pulso.  Será um dos pontos a ver aquando do lançamento oficial.

Um facto ainda mais interessante, a forma como Tim Cook apresentou. Começando com um slide tão típico de Steve Jobs (“One more thing”) e fazendo a apresentação ao seu jeito. Esta forma tem sem dúvida um significado. O Apple Watch bebe muita da filosofia de Steve Jobs não só com o design como com a forma de pensar um produto que está tão presente no DNA da Apple mas por outro lado, tem os olhos postos no futuro e é feito à medida do reinado de Cook.

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A aceitação do produto será complicado para a Apple e dependerá não só da equipa de engenharia como da equipa de marketing. Para começar o Apple Watch requer um iPhone e não um qualquer, apenas iPhone 5 ou superior. Ou seja boa parte dos consumidores ficam logo de fora ou trocam o seu iPhone. É mais um dos pontos bastante interessantes a rever em 2015.

Apple Pay

O Apple Pay marca a entrada da Apple nos serviços financeiros, um serviço totalmente novo concebido no reinado de Cook e que até ao momento tem tido enorme sucesso. Contudo continua a ser um serviço arriscado, a Apple não tem um grande histórico na prestação de serviços como tem nos produtos. Os caminhos do Apple Pay são muito fáceis de traçar: ou é um enorme sucesso ou é um grande sucesso, ou seja, ou o público começa a usar massivamente ou só durará 2-3 anos até ser descontinuado.

Evento Outubro

O evento de Outubro foi um evento mais calmo com a apresentação do novo iMac 5K, uma atualização ligeira ao Mac mini e uma atualização aos iPads. Foi o evento para a Apple e Tim Cook se despedirem do ano e libertarem as agendas. Quanto a este evento não há muito a destacar porque tratou-se apenas de atualizações de rotina a aparelhos que já estão há alguns anos no mercado. Fica apenas uma questão, não teria sido melhor a Apple fazer um evento menos cheio em Setembro e deixar, por exemplo, o Apple Watch para o evento de Outubro? Poderia assim ter explorado melhor os iPhones novos e o Apple Pay. Fica a sugestão.

iPad Air 2

 2015

2013 foi o ano da expectativa, 2014 o da mudança e 2015 o ano da fixação do estilo de Tim Cook na Apple. É expectável que ao contrário do ano que agora termine a Apple venha logo a apresentar a versão final do Apple Watch em Março ou Abril para o colocar à venda em Junho. Cook disse recentemente numa entrevista que sonha com o momento da chegada ao mercado do Apple Watch todos os dias. O Apple Watch trará também uma nova atualização ao iOS, iOS 8.2 e deve surgir já em fevereiro as primeiras versões beta.

Em junho, mês em que é normal termos a WWDC devem chegar o novo OS X 10.11 ou 11, e o iOS 9. A Apple tem vindo nos últimos anos a abandonar a apresentação de produtos de hardware na WWDC e vocacionar a sua conferência de programadores muito mais para a sua função, apresentar todas as novidades no que toca ao software dos seus aparelhos. Será também uma surpresa ver as possibilidades dos programadores para o Apple Watch, a Apple já divulgou um número reduzido de API’s para os programadores mas a WWDC marcará a divulgação de um número maior de possibilidades para os programadores e será só aqui que o Apple Watch começará a ganhar força no mercado.

Lá para setembro teremos mais uma vez um evento e devem ser apresentados o iPhone 6s e iPhone 6s Plus bem como uma atualização alargada à Apple TV. Será também a altura de introduzir algumas novidades no Mac, talvez com a apresentação do novo modelo de 12″ do MacBook Pro e a chegada do ecrã retina aos MacBook Air.

Em outubro como todos os anos devem chegar os novos iPads, o iPad Air 3 e o iPad mini 4, num evento mais pequeno e apenas para atualizar os iPads e quem sabe apresentar um novo iPad Pro com diferentes funcionalidades, um ecrã maior e um objetivo vocacionado para o mercado profissional, terá ainda mais valor aqui a parceria com a IBM.

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