Quando o Jony Ive se mete a desenhar interfaces

A keynote de ontem conseguiu reunir todo o espectro de emoções que eu poderia ter em relação às novidades apresentadas.

Depois de praticamente meio ano sem novidades, e com um secretismo ainda maior, comparativamente a keynotes anteriores, a expectativa era muito alta. Permaneciam muitas dúvidas relativamente ao futuro da Apple, ao caminho que ela devia tomar e à resposta que esta devia ter ao mercado.

Começar uma nova era

A Apple está diferente. E nesta keynote afirmou a sua entrada numa nova era, num novo caminho necessário. Uma era em que Tim Cook está no comando e em que Sir Jonathan Ive lidera a visão e o design da marca de forma holística.

Esta apresentação começou exactamente com uma redefinição/reafirmação da filosofia da marca, através de um excelente vídeo. Só por si diferente da filosofia “Think Different” de Steve Jobs, mas que reafirma os valores e princípios que com ela se alcançaram.

“Se estão todos ocupados a fazer de tudo, como é que alguém vai conseguir aperfeiçoar alguma coisa? Começamos a confundir conveniência com alegria, abundância com escolha.

Desenhar algo requer concentração. A primeira coisa que perguntamos sempre é: o que é que queremos que as pessoas sintam? Deleite, surpresa, paixão e afinidade.Só depois começamos a definir a nossa intenção. E isso requer tempo. Há milhares de “nãos” para cada “sim”.

Nós simplificamos. Nós aperfeiçoamos. Nós recomeçamos.Até que tudo aquilo em que tocamos, melhore a vida de cada um. Só aí é que assinamos o nosso trabalho.

Desenhado pela Apple na Califórnia.”

É um discurso inspirador claramente de Jony Ive. Apreciador do tempo dedicado ao pensamento e à perfeição, valorizador da concentração, reafirmador de objectivos e de processos, bem como do orgulho pela missão e pelo trabalho.

Software, meet Ive. Ive, this is software.

Ive é designer industrial (a sério?). Premiado e condecorado, é uma evidente referência. No final de 2012, com a saída de Scott Forstall, Tim Cook nomeou-o também responsável pelo design de software. Por si só, uma nomeação arrojada. Desde então aguarda-se com expectativa, não apenas o abandono da abordagem esquiomórfica, mas a aplicação dos princípios de elegância, ordem e minimalismo no software. Bem como o aumento da proximidade entre hardware e software, algo que sempre fez parte das vantagens dos produtos Apple.

Quando surgiu o iPhone havia a necessidade de apresentar uma interface compreensível e decifrável, mesmo para quem não usava um computador com frequência. O número de funcionalidades implementadas era bastante reduzido comparativamente a hoje e a grande novidade era o multitoque. Foi praticamente natural que os designers se valessem de elementos e objectos mais próximos das pessoas e utilizassem as suas representações de forma literal no ecrã, de forma a facilitar a compreensão e utilização do dispositivo.

Muitas vezes, chegou a ser um factor de diversão e de atenção ao detalhe apreciável. Funcionou bem para captar a atenção e para levar os mais leigos a explorar e usar aquilo que é na verdade um computador.

O problema desse tipo de abordagem é que o seu tempo de vida é geralmente curto. Não degrada bem ao longo do tempo. É por isso que ao olhar para o iOS6 hoje, as palavras ruído, obsoleto e estagnado surgem muito rapidamente.

Ainda mais quando, nos 6 anos desde que o iPhone e o iOS foram revelados, a concorrência respondeu e tornou-se mais forte e capaz, com soluções à altura e com robustez suficiente para ameaçar a liderança da maçã. Tendo a Google feito um investimento forte em consolidar toda a sua linha de produtos em volta da mesma linguagem de design, resultando num trabalho exímio de referência.

Entretanto, o próprio mercado e os consumidores já estão bastante mais familiarizados com interfaces multitoque e já esperam que os seus smartphones sejam bastante mais inteligentes, mais responsivos e, principalmente, que não criem entraves na sua utilização diária. Esperam que tirem mais proveito do hardware, que sejam mais conscientes do espaço e do tempo, e que possam acelerar processos e actividades com recurso a gestos.

Portanto, a necessidade da Apple em ajustar a sua estratégia faz todo o sentido.

Daí nasce uma nova versão do sistema operativo que deixa de ter nome de felino e que tem uma abordagem bastante mais amistosa para com os utilizadores intensivos.

Nasce um novo Mac Pro, mostrando o poder de inovação que se mantém presente na marca. A última revisão ao modelo já data de 2006, o que denota uma reavivada preocupação com o mercado profissional.

E nasce uma versão completamente nova do iOS7 segundo os princípios de design de Jony Ive. Intemporalidade, objectividade e simplicidade.

A beleza da simplicidade

No hardware, Jony Ive é honesto com os materiais e adopta formas elegantes e minimalistas. Para o software, a honestidade, a elegância e o minimalismo mantêm-se.

Esta honestidade digital é construída com o utilizador em mente. Reconhece a forma como este manuseia o dispositivo, reconhece os sensores e os dados que estes podem fornecer para enriquecer a interface, e aborda a tipografia, a cor, a grelha, a transparência e opacidade, os símbolos, de forma muito pragmática e objectiva.

Tudo caminha no sentido de criar a melhor percepção de utilização para a pessoa e de a fazer sentir-se bem.

Jony Ive está a procurar criar a definição daquilo que é o bom design em software e interface. E até certo ponto, penso que está a fazer um excelente trabalho.

Diz-me que também é uma piada

Mas a minha dúvida e o meu cepticismo começa nos ícones. Cada par deles parece caminhar num sentido diferente. A noção de equilíbrio, de contraste e de legibilidade parece não fazer parte da equação.

A coisa corre melhor quando abrimos algumas das aplicações. O calendário, a aplicação de fotos, a bússula, o relógio e a calculadora parecem-me exímios. Tanto a ideia como a execução funcionam. Percebe-se que a actividade de cada uma destas apps foi melhorada e repensada para funcionar melhor. Há novas e melhoradas animações e detalhes de interacção inteligentes.

Contudo, não percebo porque é que os Reminders ainda usam uma textura de papel, nem porque é que o ecrã de chamada está tão esquisito. Nem porque é que só têm de usar Helvetica Neue Ultra Light. Nem porque uma ideia tão boa como o Control Panel tinha de ter um ar tão alienado e confuso.

Conseguiram que na mesma versão do iOS, algumas coisas parececem incrivelmente inteligentes e incrivelmente más. Arruinando qualquer noção de polimento e atenção. Criar problemas de contraste e legibilidade básicos para a acessibilidade e affordance do mesmo não me parece o tipo de risco a correr.

Desenhado pela Apple na Califórnia, my ass

Parece que tiveram “todos ocupados a fazer tudo”, sem tempo para “aperfeiçoarem” coisa nenhuma. A única coisa que consegui sentir foi a surpresa, muitas vezes negativa. O deleite, a paixão e a afinidade ficaram-se pelo Mac Pro.

O caminho da pureza e do minimalismo em software, corre o risco de excesso de abstracção. Talvez se tenham perdido no esforço de comprovar o argumento de que estão vivos e de boa saúde, enquando repensam os seus valores. Há alguma esperança que a Apple aprenda e reveja muitos destes elementos. Mas para já é só isso, esperança.

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