Os bilhetes digitais e as memórias esquecidas

A chegada do Passbook no iOS6, App que permite centralizar a utilização de bilhetes digitais, veio reavivar as discussões sobre esta tendência da substituição dos bilhetes “em papel” por versões digitais que podemos transportar nos nossos smartphones. A Apple não é a única interessada neste conceito, e antes dela já muitas outras empresas se aventuraram nestas áreas ou suas relacionadas – temos até a Portuguesa CardMobili, que bem se esforçou por nos libertar dos cartões físicos na carteira e substitui-los por versões igualmente digitais.

Também muitos passageiros já se terão rendido às vantagens dos bilhetes de avião electrónicos, que até permitem acelerar o processo de embarque e check-in; e pessoalmente, já nem me lembro da última vez que estive numa fila para comprar bilhetes para o cinema (desde que o mTicket ZON Vodafone se tornou o meu melhor amigo).

Esta é uma tendência que se irá tornar cada vez mais comum, mas que virá acompanhada de algumas mudanças que poderão entristecer algumas pessoas…

Não me refiro sequer à fraca autonomia dos smartphones actuais poder significar que ficam sem acesso ao bilhete digital no pior momentopossível; mas sim ao desaparecimento de um pedaço de papel que poderia servir de recordação para eventos que gostaríamos de imortalizar.

Sim, é possível tirar fotos e guardar vídeos (bens que hoje em dia são igualmente digitais e raramente convertidos para formatos “físicos”), mas… ficará destinado ao esquecimento aquele bilhete de comboio de uma viagem de férias com amigos; ou daquele concerto único e irrepetível que nos ficou gravado na memória; de um jogo de futebol que marcou uma geração;  ou ainda uma colecção de bilhetes de cinema que servia de “cadastro” para o nosso historial cinematográfico.

Confesso, estou/estava enquadrado neste último caso: mantendo ainda muitas centenas de bilhetes, dos velhinhos cinemas tradicionais – como o Batalha, Coliseu, Águia D’Ouro, e tantos outros – onde escrevia religiosamente o nome do filme e o seu realizador; na altura não havia IMDB para poder ir pesquisar o nome do realizador do filme! 🙂

Mas confesso igualmente que perdi este hábito quando os cinemas dos shoppings tornaram obsoletos os cinemas antigos. Agora,os talões impressos que servem de bilhete nem sequer têm a durabilidade necessária (alguns ao final de poucas semanas já estão “apagados”); o que aliado às tais vantagens que o digital e a internet permite – de poder simplesmente ir ao IMDB ou outros sites, e marcar os filmes que vi – fazem com que tal deixe de ser necessário, como forma de manter um histórico.


A digitalização, que fez com que os discos de música, LPs e Singles dessem lugar aos CDs, e agora a meras versões digitais que habitam nos nossos computadores e smartphones – fazendo esquecer os tempos em que  se manuseavam os discos, capas, e livros ou desfolháveis que continham – vai avançando e “roubando-nos” de cada vez mais objectos físicos, sob o signo da comodidade e facilidade extra.

Não há que temer a evolução, e também eu – como disse – muito aprecio o que os bilhetes digitais permitem. Mas não posso deixar de olhar com enorme nostalgia o desaparecimento de “registos físicos” que noutras épocas serviriam de memórias palpáveis. Isso é algo que sem dúvida irá ser sentido com saudade por muitos; e que as novas gerações se arriscarão a nem saber o que isso significa.

(Se actualmente os mais jovens ainda poderão estar habituados a ter as “caixas” dos seus jogos das consolas, em breve também esses jogos serão distribuidos digitalmente – muitos já o são – e farão também disso apenas uma distante memória do passado).

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