Investigação da BBC indigna a Apple

Guerra aberta entre a Apple e a BBC. Depois de o canal britânico ter exposto as condições em que trabalhavam os funcionários de uma fábrica onde é produzido o Iphone 6, na China, a Apple reagiu através de um email dirigido aos 5 mil trabalhadores que operam no Reino Unido: Tim Cook e Jeff Williams, vice-presidente para a área operacional, afirmaram-se “profundamente ofendidos” com o que foi revelado na investigação do Panorama – um programa daquela cadeia televisiva.

A equipa de repórteres esteve infiltrada numa fábrica da Pegatron – uma fornecedora da companhia fundada por Steve Jobs -, nos arredores de Xangai, onde são produzidos os novos iPhone 6. Disfarçados como trabalhadores da fábrica, os repórteres relataram em primeira mão turnos de 12 horas que levavam à exaustão os empregados. No excerto divulgado esta quinta-feira pela BBC, é possível ver vários funcionários a dormirem, esgotados. Um deles é, inclusivamente, avisado pelo presumível superior sobre os perigos de adormecer sobre a linha de montagem: corria o risco de morrer eletrocutado.

Um dos jornalistas infiltrado foi obrigado a trabalhar durante 18 dias seguidos, sem que lhe fosse concedida qualquer folga. O outro teve de trabalhar durante 16 horas – chegou a um ponto de exaustão tal, que não tinha forças para comer. “Mesmo se estivesse com fome, eu não conseguia levantar-me para comer [quando chegava aos dormitórios]. Só queria estar deitado e descansar. Não conseguia dormir à noite por causa do stress“, revelou o repórter. As condições nos dormitórios eram desumanas: chegaram a ter de dividir um quarto minúsculo com outros 12 funcionários.

Ainda assim, a Apple fez questão de sublinhar que as acusações da BBC – que alegou que a Apple não estaria a impor reformas positivas nas condições de trabalho dos seus funcionários, como, aliás, tinha anunciado, depois de serem conhecidos casos dramáticos também na China – foram rapidamente refutadas pela companhia: “A investigação do Panorama alega que a Apple não está a melhorar as condições de trabalho [nessas fábricas]. Deixem-me dizer o seguinte: nada poderia estar mais longe da verdade”, garantiu Jeff Williams, dirigindo-se diretamente aos trabalhadores da companhia no Reino-Unido.

Apesar de admitir que a Apple “pode fazer melhor” quanto às condições de trabalho a que os seus funcionários estão sujeitos e ao número de horas que têm de trabalhar, Jeff Williams assegurou que esse caminho está a ser feito. “[A Apple tem] engenheiros talentosos e gestores, que também são pessoas com compaixão, treinados para relatar quando veem riscos ou abusos” a que os funcionários possam estar sujeitos.

“Não temos conhecimento de nenhuma outra empresa que se empenhe tanto para garantir condições de trabalho justas e seguras, para descobrir e investigar problemas, para corrigir e resolver esses problemas. quando surgem, e para garantir a transparência nas operações dos nossos fornecedores [como a Apple]”, acrescentou, ainda, o vice-presidente para a área operacional.

A mesma equipa de jornalistas do Panorama visitou, também, fábricas que fornecem componentes tecnológicos para a Apple, localizadas na região de Bangka, na Indonésia. E confrontaram-se com um cenário igualmente desolador: crianças a trabalharem em condições de perigo iminente.

Além de terem despertado para esta realidade, os repórteres denunciaram também a utilização de estanho explorado de forma ilegal em minas da Indonésia, algo que foi admitido pelo próprio Jeff Williams. “A Apple declarou publicamente que o estanho oriundo da Indonésia é usado nos nossos produtos, e algum desse estanho, provavelmente, pode vir de minas ilegais”.

“Dezenas de milhares de garimpeiros estão a vender estanho através de muitos intermediários para as fundições, que depois o entregam aos fornecedores de componentes para realizarem vendas em todo o mundo. O Governo [indonésio] não está a abordar a questão, [mas] existe uma corrupção generalizada na cadeia de abastecimento”, reforçou o Williams.

Todavia, Jeff Williams e a Apple, mesmo tendo conhecimento destas ilegalidades, recusam-se a encerrar as suas fábricas na Indonésia, ainda que isso poupasse a companhia da publicidade negativa que estes casos agora revelados implicam.

“A Apple tem duas opções: nós poderíamos ter a certeza de que todos os nossos fornecedores compram estanho de fundições de fora da Indonésia, o que provavelmente seria a coisa mais fácil a fazer – e proteger-nos-ia, certamente, destas críticas. Mas isso seria o caminho preguiçoso e covarde, porque não faria nada para melhorar a situação dos trabalhadores indonésios ou o Ambiente (…) Nós escolhemos o segundo caminho: comprometemo-nos e vamos tentar encontrar uma solução coletiva”, justificou o vice-presidente para a área operacional.

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