Corria o ano de 1975. Sim, já foi há muito tempo e quase toda a Lisboa “da brasa” se virava para as novidades não políticas. Uma delas, notícia de respeito, dava conta da inauguração na (então) periferia de Lisboa do primeiro verdadeiramente grande Centro Comercial da cidade.

Se hoje é uma novidade quase corriqueira, na altura estávamos a falar da urbanização mais chic de Lisboa e do seu “Shopping”. Se o leitor ainda não adivinhou qual, não precisa esforçar-se muito, até porque a maioria das pessoas que eventualmente estejam a ler estas linhas nem pensavam ainda em ter nascido quando o Centro Comercial da Portela viu as suas portas abertas ao público pela primeira vez.

Esse dia, que para mim foi marcante de uma forma deveras profunda, permitiu-me observar, sentado no frio dos azulejos do reluzente Centro, uma demonstração de um helicóptero telecomandado, uma máquina de boa envergadura, feito por um lojista especialista em material de rádio-comando, loja que não faço a mais leve ideia se ainda existe, mas poucas coisas me espantam nos tempos que correm.

Eu já era um pedacinho apanhado por helicópteros, desconheço a razão, talvez por ter visto alguns meses antes uma outra demonstração de um Allouette no relvado do Estádio do Jamor e essa tarde na Portela foi marcante a vários títulos. Porque o referido modelo de helicóptero estava marcado a cem mil escudos, número que na altura era tão incomensurável como hoje o é o déficit público português e mais marcante ainda porque saí dali com a firme certeza de que eu era capaz de replicar um helicóptero pelos meus próprios meios. Por replicar, entenda-se, construir. Mesmo de tenra idade nunca fui de me render a desafios impossíveis e poucos dias depois, a “carenage” de um banco de cozinha, um motor de batedeira e duas imensamente longas réguas de estore, haveriam de me levar do sonho da glória aeronáutica à humilhação. Poupo ao leitor os detalhes da construção, a caranguejola levantou voo sim, o difícil foi evitar o desastre do percurso aéreo e o respectivo cortejo de destroços que incluiu o topo superior de um armário de louças, uma mesa de sala para sempre gravada pelos impactos, para não falar do meu traseiro que sobreaqueceu às mãos de minha mãe ou do meu amor próprio aeronáutico. Julguei nesse dia ter encerrado as minhas ambições aviónicas, mas eis que trinta e sete anos depois, vejo este anúncio…

Chama antiga custa a morrer, dizem, e se não o dizem, deviam, porque o Distribuidor português dos produtos Griffin, a Servisoft, ligou os motores, melhor diria, os rotores e aterrou na minha caixa de correio um exemplar do Griffin Helo TC (Versão Assault). A versão Assault diverge em dois aspectos da versão do helicóptero normal: Esta versão é equipada com dois mísseis disparáveis e devido a este aspecto a fuselagem é mais completa, cobrindo a estrutura de forma quase integral ao contrario do que sucede na versão base, mais “naked”. Não que isso traga à experiência final nenhuma diferença em particular, na versão normal as portas de carga e switches estão numa das laterais, enquanto na versão Assault estes pontos estão situados na barriga da aeronave (é menos prático carregar a respectiva bateria interna na versão Assault). O outro aspecto, meramente estético, é o facto de na carenagem completa haver mais material para danificar, mas já lá chegaremos.

Ainda dentro da caixa, o aspecto geral é francamente frágil (mas verifica-se mais tarde que é apenas aspecto…). Dois planos de hélice no mesmo rotor central, um plano de impulsão e outro de direcção e um rotor traseiro de navegação num conjunto de planos de hélice de extrema mecanização que parecem querer desmanchar-se a todo o instante, mas que permitem uma arrumação criteriosa dentro da caixa de transporte do helicóptero, com os planos de pás a sobreporem-se evitando uma volumetria e prevenindo danos no aparelho. Continuando a enumeração do pack do Helo TC, encontramos a seguir a (volumosa) unidade de comando (que encaixaremos no iPhone), o cabo de ligação que permitirá carregar a bateria interna do helicóptero) e um pequeno saco com hélices e material mecânico de substituição. Percebereis um pouco mais à frente como este pequeno saco é importante nas primeiras horas de navegação aérea…

A unidade de comando na qual inseriremos o iPhone não é absolutamente nada complexa de percepcionar. Munidos de duas pilhas AAA (não incluídas) apenas há que inserir o telefone sob dois clips que manterão a unidade íntegra e ligar um pequeno jack na saída de auscultadores. Toda a comunicação que o telefone faz com a unidade de comando é transmitida pela porta de áudio e a comunicação com o Helo TC Assault é feita por infra-vermelhos. Nada disto interessará por aí além até ao momento em que lhe disser que os infra-vermelhos portam-se lindamente em interior, mas podem ocorrer problemas no exterior se houver incidência de luz solar. Isto em si mesmo é um aborrecimento se pensarmos que o Helo TC “está mesmo a pedir” umas voltinhas pelo exterior. A embalagem possui vários avisos expressos sobre esta questão, mas dificilmente alguém lhes ligará enquanto não houver falhas de comunicação entre comando e helicóptero… Está dito e redito.

O software da consola de comando do Helo TC Assault é gratuito e pode (deve/tem) que ser descarregado da iTunes Store. Uma vez descarregado e corrido pela primeira vez, uma rápida olhadela ao interface permitirá perceber rapidamente as suas principais zonas de comando e respectivas acções. Compreende a escala de aceleração do rotor principal, comando de aterragem de emergência, biblioteca de planos de voo, sector de configurações, manche de comando principal, orientação de deslocação e orientação de sentido e comandos disparadores de mísseis (Versão Assault)

Prepare-se o piloto amador em busca da glória do Apocalypse Now, para isso mesmo, uma espécie de pequeno Apocalypse aéreo. O controlo do Helo TC vai requerer alguma prática e treino, e saltar etapas vai ter como resultado um ego fortemente amachucado. Propositadamente a velocidade de elevação vertical está reduzida a 50% e foi uma decisão sábia, já que as primeiras impulsões podem terminar violentamente contra o tecto do local onde está a fazer os seus primeiros voos. É por isso mesmo que o acelerador de rotação está “castrado”, até que o piloto domine a máquina sem lhe infligir grandes danos. Quando se sentir confiante, pode essa redução ser eliminada e aplicar-lhe índices de potência mais consentâneos com os seus desejos.

De imediato se percebe que o domínio do slider de aceleração é essencial e é vital que o piloto perceba que há um delay mínimo de comunicações. Exagerar na rotação inicial vai fazer com que a impulsão vertical seja brutal (O Helo TC é muitíssimo rápido dado o seu diminuto peso) e é nessas primeiras subidas que se vai perceber com clareza que o aspecto frágil do helicóptero não passa disso mesmo, de aspecto. O Helo TC vai parecer-lhe constituído de material inquebrável (e acredite, não é…) e agradecerá a quem esteve encarregue do design de pás de hélice o facto das mesmas não serem rígidas. A segunda resposta virá por si mesma e dará diálogo à pergunta “Para que raio quero eu um botão de aterragem de emergência?”. Acredite, precisará desta função mais vezes do que pensa. A aterragem de emergência corta a ascensão vertical e reduz a taxa de descida à vertical do ponto onde se encontrar, permitindo que o Helo TC chegue ao solo pousando suavemente sobre a estrutura de aterragem sem males de maior monta.

No Assault de que disponho, as primeiras sessões de voo não foram francamente animadoras, mas algumas tentativas depois, a curva de aprendizagem começou (finalmente) a empinar-se. A fuselagem do Helo TC Assault está ainda íntegra, com apenas um ligeiro dano no nariz da aeronave. O conjunto (generoso) de peças de substituição que acompanha o helicóptero vai permitir continuar a voar mesmo que algum percalço possa suceder-lhe e o kit de peças pode ser encomendado à parte para futuras reparações. A montagem de pás de hélice é simples e não requer conhecimentos de maior.

A carga da bateria interna do Helo TC Assault permite uma autonomia real de 14 minutos de voo e pode ser reposta em pouco menos de 20 minutos. O alcance do míssil quando disparado é de cerca de 3 metros (O meu gato odeia este helicóptero…), havendo também mísseis de substituição na embalagem. O piloto experimentado pode, desenhar um padrão de voo, guardá-lo e executar esse mesmo voo padronizado sempre que entenda exibir uma determinada rotina de manobras.

Este helicóptero acaba por se transformar numa excelente peça de entretenimento, descontada a já referida curva de aprendizagem inicial que pode tornar-se algo frustrante. Dentro desta gama de produtos pode considerar-se esta compra como um investimento compensador para a fruição que pode ser obtida. Uma nota final que poderá ser de alguma utilidade: Este helicóptero não deve, repito, não deve ser operado por crianças ainda que sob a orientação de adultos. A velocidade de rotação dos planos de hélice é potencialmente perigosa uma vez que para prevenir quedas bruscas há instintivamente vontade de suster ou apanhar o helicóptero em pleno voo, correndo o risco de se magoarem nas pás em acção.

O Griffin Helo TC está à venda em Revendedores Apple (existe software para tudo o que seja iOS e Android) ao preço de 62 e 75 Euro (Versão Assault)

“Could we, uh… talk to Colonel Kurtz?
Hey, man, you don’t talk to the Colonel. You listen to him.”