Nuno Coelho Santos, o criador da Currency em entrevista

É Português. Designer e programador. Criador da Currency. Já trabalhou para marcas como a Google, a American Express, a Puma ou o eBay. Vive atualmente em Tóquio depois de ter estudado em Londres. Uma entrevista onde Nuno Coelho Santos nos fala um pouco sobre a sua vida, a passagem pela ustwo e pela Thread e o mundo Apple.

Foi em maio deste ano que falamos aqui na Currency, uma nova aplicação que permite fazer a conversão de moeda. Quando experimentamos a aplicação, ainda antes de ser disponibilizada ao publico, ficamos logo interessados pelo design e pela história do criador. Nuno Coelho Santos, o designer e programador da aplicação com origem no norte de Portugal mas que atualmente vive em Tóquio depois de já ter passado por cidades como Londres onde estudou. Fica aqui a entrevista de uma pessoa inteiramente ligada ao mundo Apple e que já trabalhou com marcas como a Google ou a American Express.

Conta-nos um pouco do teu percurso, desde os estudos no Porto até a 2008 quando te mudas de malas e bagagens para Londres.

O meu percurso em design gráfico começou na Escola Secundária Artística de Soares dos Reis no Porto. Nas disciplinas práticas de design da Soares dos Reis eu tinha mais talento para design de produto. No entanto, como adorava tecnologia e queria estar mais envolvido no lado digital optei por me especializar em design de comunicação visual.

O que te levou a mudar em 2008 para Londres?

A minha principal motivação que me levou a mudar para Londres foi estudar design gráfico na Central Saint Martins. Eu avaliei as opções em Portugal, Espanha e no Reino Unido e fiquei com muito boa impressão do curso da CSM—era mais internacional, mais focado no lado concetual e de direcção artística. Estando eu prestes a concluir um curso bastante técnico na Soares dos Reis, pensei que continuar o ensino superior numa faculdade mais conceptual seria importante para obter um bom balanço.

Durante o meu 11º ano decidi ir a Londres ver as faculdades. Informei-me sobre o custo de vida, apoios ao custo das propinas, como conseguir um trabalho part-time, como funcionavam as residências para estudantes e o processo de candidatura. Candidatei-me para ver se conseguia entrar e quando me deram uma oferta decidi aceitar.

Neste momento estás a viver no Japão, podes-nos contar porque foste para aí e quais são as principais diferenças que notas entre cultura mais oriental e Portugal?

Eu sempre tive ideia de tirar um ano sabático depois de trabalhar 7 anos. Como era freelancer durante a faculdade, Setembro de 2015 marcou 7 anos de trabalho. Esta é provavelmente a única fase da minha vida em que sou independente o suficiente para poder ir para Tóquio durante um ano sem plano e ver no que resulta. Então decidi fazer as malas e partir.

Quando cheguei continuei a trabalhar para Londres remotamente. O próximo passo foi estudar Japonês. Depois fiz uma pausa para viajar e comecei a trabalhar de novo com clientes locais. Em Tóquio trabalho principalmente com startups e com a IDEO. Durante o último ano li imensos livros e reflecti sobre qual é a minha intenção profissional. Acho que foi um dos anos mais importantes a nível pessoal e profissional onde aprendi a balançar a vida e o trabalho, o que me levou também a crescer como pessoa.

No que toca a diferenças culturais, talvez me foque nas diferenças em torno de trabalho em design digital no Japão e na Europa. O mercado para design digital no Japão funciona um bocado como o mercado de publicidade: com o lançamento de um produto novo, é desenhado um interface novo de raiz. Vê o caso da Apple: A Apple lança o iOS e o iPhone como dois produtos separados. Um complementa o outro, mas são independentes. Agora vê a Sony: A Sony lança uma PlayStation nova, com um interface novo, que funciona de forma completamente diferente do anterior e quase sem ligação. É a diferença entre desenhar software como um produto em si e software como apenas um componente do produto físico. Agora por curiosidade vê a Google: A Google lança uma versão de Android nova, que é uma iteração da anterior, mas lança telemóveis quase como um componente físico do sistema operativo.

Regressando à questão. Muitas das empresas não têm equipas de design internas e contratam agências externas para fazer o design. O design de interface é visto como um acessório ao produto, que em cada produto é alterado e cada ano é redesenhado. Muitas das vezes o objectivo é estética em vez de função. É desenhar um interface mais atraente, que se destaque da competição, para deitar ao lixo no ano seguinte. Por isso é que muito do design digital japonês é experimental, deslumbrante, difícil de utilizar, único e difícil de manter.

Fala-nos um pouco do teu trabalho na ustwo e na Thread. O que é que cada uma faz, com quem trabalhaste e o que é que aprendeste em cada uma.

Na ustwo trabalhei como programador web, como designer de interface e depois como designer/programador híbrido. Na altura o meu título era “Hybrid Designer” porque não havia um melhor, mas atualmente esse título é “Product Designer”. A ustwo faz design de produtos digitais como aplicações, websites, jogos; que tenham uma ligação entre um produto digital e o utilizador. Eu estive envolvido em projectos para a Google, Sony e Barclays até ficar a longo prazo num projecto para a American Express. Trabalhei com imensas pessoas. Com a Yu-Jin aprendi sobre icon design, com o Jay aprendi a trabalhar em equipa, com o Mike Douglas aprendi a nunca chegar tarde, com o Stenberg aprendi mais sobre Android, com o Mio aprendi sobre desenvolvimento web, com o Davide aprendi sobre JavaScript, com o Mills aprendi a ser a melhor versão de mim mesmo, com o Álvaro aprendi a passar energia à equipa, com o Victor aprendi a acreditar em mim, com a Aggeliki aprendi a entender utilizadores; e aprendi muito mais com muitas outras pessoas dentro e fora do trabalho. Ainda hoje continuo a aprender.

Na Thread trabalhei como product designer, onde o objectivo passava por tornar a Thread melhor, semana após semana. Os problemas ou aspectos a melhorar no produto eram definidos por nós como objectivos semanais, e eu fazia tudo o necessário para alcançar esses objetivos, desde design, a programação, a entrevistas, ou customer support. Trabalhei com o Kieran O’Neill, que é super inteligente e exigente, mas muito humilde. Trabalhei com o Ben Kucsan que era o meu mentor pessoal e com quem aprendi muito mais do que design. Trabalhei com o Chris Lamb que é obcecado com perfeição e controlo. Aprendi todos os dias com todos os membros da equipa por haver um ambiente tão cândido, tão transparente, e tão exigente. A equipa da Thread é uma equipa muito forte, e tenho imensas saudades.

O que te levou a sair da ustwo?

A ustwo é uma agência com um grande poder criativo e grande qualidade de execução. Eu podia ter ficado e continuado a aprender até especializar-me, mas decidi sair e aprender mais num estilo de empresa diferente. Na altura ainda estava no início da minha carreira e sabia que precisava de entender mais sobre o ramo em que estava a entrar, daí a minha vontade de sair para explorar outros caminhos.

A Thread é completamente diferente da ustwo. Em vez de 200 pessoas a trabalhar em projetos novos ao longo do ano, são 20 a melhorar o mesmo produto todos os dias. As tuas decisões são bastante mais criticadas e estão a ser testadas com utilizadores na semana seguinte. Na Thread falhar fica muito mais caro e a velocidade em que trabalhamos é muito mais rápida. Só estando dentro de uma equipa como a Thread é que conseguiria entender os desafios de uma startup. E a Thread é uma das melhores equipas com que já trabalhei.

Em que projetos estás a trabalhar agora?

Neste momento estou a trabalhar num projecto com uma startup japonesa. Nós já temos a visão do produto estabelecida e várias ideias para execução do produto. Uma execução já foi testada no Japão e eu estou a ajudar a criar uma versão para ser testada nos Estados Unidos.

Para além deste projecto estou a actualizar o meu portfólio, que está quase pronto e deve ser lançado em Novembro depois de receber feedback de outros designers.

Que ferramentas usas para trabalhar?

As ferramentas variam conforme o tipo de trabalho. Eu especializo-me em design e só recentemente é que comecei a desenvolver para iOS. Em qualquer projecto, eu uso sempre uns cadernos da MUJI tamanho A3 para esboçar e uma esferográfica ou marcador preto. Eu gosto de esboçar tudo a preto e depois escrever críticas e notas a vermelho.

Para desenhar um produto—definir o objectivo, a função principal, a razão de existir, gerar ideais, esboçar, criar protótipos e testar—são precisas várias ferramentas de brainstorming, desenho, protótipo e teste. Algumas das minhas favoritas são Arduino, Framer Studio, FrontBack e as câmaras Ziggi.

Para design de interfaces, costumo usar Sketch onde crio os mockups mas ainda chego a utilizar por vezes Photoshop, Illustrator e AfterEffects. Mais recentemente começei a exportar os meus designs para Zeplin, onde depois trato da documentação. Outras das minhas ferramentas favoritas são o Sip, Little Ipsum e RightFont.

Para programar utilizo Sublime Text 2 como editor de texto, iTerm2 como terminal e ZSH como shell. Para desenvolvimento iOS utilizo, obviamente, o XCode. Sempre que escrevo código gosto de definir o tipo de letra como Inconsolata em tamanho 16 e o color scheme Base16 Ocean. Para web development especializo-me em Ruby on Rails, mas quando desenvolvo sites estáticos uso o Middleman. Como git server recorro ao Bitbucket para arquivar os meus repositórios e Github para colaborar ou partilhar repositórios publicamente. Costumo frequentemente utilizar o ngrok para criar túneis aos meus localhosts na internet, Dash para documentação, CodeBox para code snippets e ClipMenu para historial do meu clipboard.

Para colaboração e gestão de projectos confio no Google Docs e Google Sheets, Slack, Trello, Things, e por vezes o Asana.

Que conselhos dás a quem quiser criar aplicações para o iOS da Apple?

Existem 3 partes, na minha opinião, para aprender a fazer aplicações para iOS: 1) Aprender a programar, 2) Aprender a utilizar o Xcode, 3) Aprender a programar para iOS utilizando o Xcode. Para a primeira parte, eu aconselho lerem um livro de programação que ensine Python ou C ou Swift. Escolham o livro que vos dê mais gosto aprender. Depois de saber os básicos de programação, é fácil mudar de linguagem. Para a segunda parte, vejam uns tutoriais de vídeo online e vão seguindo passo a passo. Também podem optar por livros práticos que vos põem a criar uma app de raíz. E para a parte final, optem primeiro por desenhar os vossos produtos, e por fim estudem a documentação da Apple conforme precisaram, isto é, há medida que forem encontrando novos desafios no desenvolvimento do vosso desenho.

O meu percurso começou por aprender Ruby com Beginning Ruby da Apress. Depois li Beginning iOS Development with Swift 2. Utilizei depois o Design+Code do Meng To e outros tutoriais online. Tentei também recriar algumas aplicações do 100 Days of Swift do Sam Lu. Por fim, comecei a ir a Swift workshops e conferências, passando depois a criar as minhas próprias apps aprendendo com a documentação da Apple ao longo do caminho.

Como surgiu a ideia para a app Currency? De uma necessidade pessoal, ou percebeste que havia uma lacuna na oferta da App Store?

Perguntei no Twitter que aplicação ou serviço é que as pessoas usam todos os dias que podia funcionar melhor ou estar mais bem desenhado. O Jonathon Toon disse que ia sempre ao Google para converter moedas. Logo decidi criar um conversor de moedas. Este é o tweet dele.

Era uma app perfeita para começar. Uma app simples e pequena que utiliza networking para actualizar as taxas de câmbio, fazendo uso de uma base de dados local para guardar essas taxas de câmbio, e que requer um ecrã com interface completamente personalizada.

O que te levou a programar primeiro para iOS?

Eu tenho um iPhone, logo uso iOS, e queria esta app também para mim. Swift é uma linguagem nova que eu tinha muita curiosidade em aprender. Existem imensas apps como esta na App Store, logo criar uma nova que mereça existir puxa pelo lado criativo. Estes três factores levaram-me a desenhar e programar primeiro para iOS.

Como programador, qual é tua opinião sobre a exclusividade de distribuição através da App Store?

Eu acho que a App Store trouxe muito poder a programadores independentes. Tornou iOS numa plataforma que os consumidores confiam e através da qual os programadores são pagos. Para haver qualidade e segurança é preciso haver controlo da distribuição.

Já pensaste em lançar a Currency para Android?

Sim. Já pensei como o design poderia funcionar e estive a ver o que precisava de aprender. Mas por agora vou passar para o próximo produto. Pode ser que um dia mais tarde seja possível programar em Android com Swift e aí já é uma barreira de entrada mais baixa.

Depois da Currency, vamos ter mais novidades tuas no que toca a aplicações?

Estou neste momento a desenhar um app que inicialmente vai ser dedicada a utilizadores em Tóquio.

Obrigado Nuno. Tens alguma coisa que querias adicionar ou alguém que queiras mencionar?

Queria agradecer ao Tiago Alves e ao Jack Veiga pela ajuda nesta entrevista. O Tiago e o resto da iterar são uma inspiração no que toca a criar software para medicina. O Jack está a fazer um trabalho excelente a criar o estúdio Made in Alpha em Singapura. E um obrigado a ti Rogério pela entrevista.

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