Entrevista a Marcel Schmitz, autor da app FlickrBoard para iPhone

A app FlickrBoard (um cliente do Flickr para iPhone), foi lançada há pouco tempo e rapidamente subiu aos primeiros lugares nos tops de vendas, obtendo entretanto críticas muito positivas dos seus utilizadores. O mais impressionante é o facto de este sucesso ter sido alcançado naquela que é a primeira aplicação para iPhone desenvolvida pelo autor, Marcel Schmitz. Ficamos muito curiosos sobre o processo de conceção e desenvolvimento desta app portuguesa, pelo que decidimos conversar um pouco com este jovem programador.

Quem é o Marcel Schmitz? Fala-nos do teu percurso.
A minha história começa há 500 anos atrás, quando Portugal descobriu o Brasil!
Sou natural do Brasil, nasci em Blumenau, Santa Catarina, de nacionalidade alemã, e mudei-me para Portugal em 1988. A minha área é a informática, desde 1998 que sou programador web e que tenho um enorme interesse pelas tecnologias móveis. Durante os anos em que programei páginas web lancei vários projetos, quando os portais estavam na moda, como o Portaldemp3.com ou o GSMBoys.com, sempre com aquela vertente presente de ligar prestação de serviços web com utilizadores. Na altura os dispositivos móveis eram raros e a plataforma da Microsoft absolutamente horrível para programar, não havia grande motivação. Com a minha decisão de mudar para a plataforma da Apple, em 2006, e com o aparecimento do primeiro iPhone, em 2007, voltou o bichinho de programar para as plataformas móveis e, por entre diferentes projetos que entretanto criei, entre os quais cursos de formação em plataformas Mac e consultoria certificada Apple, foi finalmente tempo para tornar um sonho realidade, do qual me orgulho do fundo do coração.

Qual é a tua formação?
Depois de passar por vários cursos superiores enquanto trabalhava, e de ter feito várias formações técnicas e certificações na área da Informática, estou neste momento a terminar a Licenciatura em Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia do Porto.

Que ferramentas usas para trabalhar?
Um Mac, um iPad e um iPhone. Steve Jobs sabia muito bem o que estava a fazer quando orientou a criação destes 3 produtos – são incrivelmente complementares entre si e indispensáveis no meu dia a dia. Desde a simples consulta de email à mais complexa situação de criação de um algoritmo, satisfazem por completo todas as minhas necessidades. Um trio perfeito, para mim.

Que Mac usas, há quanto tempo e porquê?
Uso Mac “apenas” desde 2006, coincidência ou não com a introdução dos processadores Intel. Quem trabalha na área do software rapidamente percebe que esse poderá ter sido um fator extremamente importante para o crescimento da Apple. Um Macbook Pro de 15 polegadas preenche todas as minhas necessidades.

Como surgiu a ideia para a app FlickrBoard? De uma necessidade pessoal, ou percebeste que havia uma lacuna na oferta da App Store?
Precisamente por esses dois motivos. Primeiro, por haver claramente uma lacuna, a aplicação da própria Flickr é antiga e desinteressante. Estamos numa era de redes sociais, e o Flickr tem imenso potencial que a meu ver está a ser desaproveitado. Em segundo, há uma vontade imensa de fazer algo para o iPhone, o tal bichinho adormecido que foi despertado pela introdução do iPhone no mercado.

É a tua primeira experiência no desenvolvimento de aplicações para iOS?
É sim. Quando comecei a projetar o FlickrBoard não tinha ideia do imenso trabalho que me iria dar. Estive para desistir várias vezes, e foi com a frequência no curso de Informática, especialmente numa cadeira de C++, de seu nome Estruturas de Informação, que fui buscar o restante de motivação que faltava para concluir esta primeira fase do projeto. A motivação neste momento é abundante, e é por isso que este projeto não fica por aqui.

Quanto tempo levou o desenvolvimento?
Este projeto começou a ser implementado em meados de dezembro de 2011. Foram portanto quase 6 meses, equivalente a 320 horas de programação nos tempos livres, todas executadas por mim, com alguma ajuda na parte gráfica de familiares e amigos.

Que software usaste?
Para o desenvolvimento de aplicações para iOS é indispensável/obrigatório o xCode, o restante anda à volta do Photoshop e muitos sites na Internet, uma ajuda supervaliosa. Utilizo muito o Evernote e o Code Collector Pro como ferramentas auxiliares.

Tiveste ajuda?
Todo o processo de implementação/programação foi feito por mim. Na parte da interface gráfica tive a ajuda preciosa da minha mulher e a dura crítica do meu irmão e amigos.

Como foi o processo de submissão à App Store?
Espantosamente bem, embora muito demorada. Há por aí muitos programadores que se queixam das razões que levam as suas aplicações a serem rejeitadas, e que os melhores passam sempre por uma mão cheia delas. No entanto, sempre li também, durante o processo de aprendizagem/programação, que se se respeitar a longa lista de regras, corre tudo bem. E assim foi, com uma rejeição apenas por uma questão legal – após uma pequeníssima alteração a aplicação foi aceite, 16 dias após submissão.

Como programador, qual é tua opinião sobre a exclusividade de distribuição através da App Store?
A exclusividade faz parte de todo o propósito. O sucesso que nós programadores temos é de facto resultado do nosso trabalho, mas também de uma estrutura extremamente bem organizada e planeada da Apple. Se eles se deram o trabalho a criar a maior ferramenta do mundo de criação e distribuição de software, então é perfeitamente aceitável que sejam eles os únicos a controlar todo o processo. Não me incomoda absolutamente nada, aliás, quase que me sinto na obrigação de chegar à beira de cada um dos responsáveis e dizer-lhes um grande obrigado.

Como tem sido o feedback dos utilizadores da app?
Absolutamente imprevisível, no bom sentido. Os utilizadores adoraram o conceito, e as mensagens de parabéns abundam. Alguns deram-se mesmo ao trabalho de procurar o endereço de e-mail de suporte no site da aplicação e enviar as suas mensagens de apoio. É extremamente gratificante.

Depois da FlickrBoard, que novos projetos podemos esperar do Marcel Schmitz?
Estou neste momento em duas fases paralelas: a projetar uma aplicação para iPad, outra lacuna que identifiquei que penso que será igualmente um sucesso, e ao mesmo tempo a programar as fases seguintes do FlickrBoard. Algumas das funcionalidades previstas estão na descrição da app na App Store, outras serão surpresa.

Que conselhos dás a quem quiser criar aplicações para o iOS da Apple?
Stick by the book! As regras existem, não só porque alguns acham que a Apple “tem a mania”, mas também porque eles sabem para o que elas servem. Graças às malditas regras que a projeção que se pode ter numa App Store é inigualável. É fundamental esquematizar todo o processo em papel ou gráficos antes de implementar. Sem um mapa, rapidamente nos perdemos. A estrada é muito complicada, mas o destino vale mesmo a pena!

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