Entrevista a Emanuel Sá, designer do Sketch 2.

Há uma semana atrás, o Sketch 2 recebeu um Apple Design Award 2012 na categoria Mac. Assim que soubemos que um dos criadores tinha perna portuguesa, ficámos curiosos em conhecê-lo. A Bohemian Coding foi fundada em 2008 e está sediada em Londres. Dela fazem parte Pieter Omvlee, o fundador, e Emanuel Sá, UI/UX designer de Vila do Conde. Já lançaram duas aplicações, ambas premiadas com Apple Design Awards: o FontCase em 2009 e o Sketch 2 em 2012. Decidimos conversar um pouco com o Emanuel.

O Sketch 2 tem pouco mais de um mês e já ganhou um Apple Design Award. Qual é o próximo passo?
Continuar a desenvolver o Sketch e o Fontcase. O lançamento do mês passado é somente o início de um ciclo que vai começar agora, de updates tanto às features actuais como de implementação de novas.

Como tem sido a experiência de desenvolvimento do Sketch?
Bastante boa. Quem tem experimentado a app fica, no geral, com uma opinião positiva, e mesmo as reviews que temos tido a oportunidade de ler têm sido fantásticas.

As vossas duas aplicações, o Fontcase e o Sketch 2, são muito direccionadas para designers gráficos. A criação dessas aplicações parte, de alguma forma, da frustração com o software da Adobe?
Certamente. Eu cresci como designer usando no geral software da Adobe. São ferramentas que começam por ser muito ingratas ao novo utilizador, a curva de aprendizagem é muito pouco linear, o que facilmente afasta muita gente. O que nos assusta nesse afastamento, é que muitas dessas pessoas, não tendo formação técnica para usar esse ou outro software, tem o que realmente importa, criatividade e originalidade, e é errado exigir a essas (e a todas) pessoas que se adaptem ao software. Seguimos um standard já há muito definido pela Apple, o software é que se deve adaptar às necessidades do utilizador, e não o oposto.

Há planos para mais aplicações para designers gráficos?
Sim, pelo menos mais uma que já está a ser pensada. Design no geral, não só gráfico, é a nossa área de foco.

Como foi o processo de submissão à App Store e o que pensas relativamente à exclusividade de distribuição através dela?
Quanto ao processo de submissão foi muito difícil. Nós tinhamos programado o lançamento do Sketch para fins de Maio, mas acontece, se não estou enganado, a Apple anunciou a WWDC no dia 25 de Abril, era feriado cá, e eu não estava nada ciente desse anúncio, até que o Pieter me envia uma sms a avisar que a WWDC estava anunciada e que a data de submissão de aplicações para os ADA terminava no dia 30 de Abril, o que nos deixou com 5 dias para terminar a app (que estava basicamente pronta). Felizmente com a ajuda da apple, conseguimos ter a aplicação aprovada no dia 29, e lançamos a app mesmo no dia 30.

Quanto a exclusividade de distribuição, agrada-nos bastante, não temos de nos preocupar com contabilidade, distribuição de licenças, servidores, é muito bom, permite-nos focar exclusivamente no desenvolvimento das aplicações.

Como surgiu a Bohemian Coding e como é que te tornaste parte dela?
A Bohemian Coding surgiu originalmente com o Pieter, até eu entrar na companhia, a Bohemian era somente o Pieter. Durante o tempo em que ele esteve sozinho, eu trabalhava com ele (e com outros programadores/companhias) como freelancer, participei em parte no Sketch original, não como UI/UX designer, somente contribuindo com os gráficos (icones, UI) que o Pieter me requisitava. Após o lançamento da App, nem o Pieter nem os utlizadores estavam contentes com a aplicação, tinha uma boa base, mas faltava-lhe foco, e aquilo que acima citei, a facilidade de permitir a qualquer pessoa “desenhar”. Após uma sessão de brainstorming para novas features, acabamos por chegar à conclusão que pouco se podia fazer, e que o ideal seria recomeçar. O projecto em si agradou-me bastante, e partilho muitas das mesmas ideias que o Pieter, dai até me juntar a ele na Bohemian foi um instante.

Que importância e que influência pensas que este prémio possa ter a nível nacional?
Nenhum. Por incrível que pareça, em Portugal pouca gente está atenta a este tipo de coisas, parece não ser tão importante para o público geral, não como o é para mim. Um Apple Design Award é algo que, lá fora, nos outros paises, é extremamente valorizado, é o prémio de excelência a nivel de desenvolvimento de software e design de interfaces mais desejado, é um prémio que prestigia bastante, não só a nível de imagem, mas principalmente a nível de credibilidade.

Como tem sido o feedback relativamente ao Sketch e ao prémio?
Externamente, tem sido fantástico, como já tinha dito, o prémio teve uma repercussão enorme em países como os Estados Unidos e Reino Unido.

Quais são as ferramentas que usas, hardware e software?
A nível de hardware, uso um Macbook Pro de 15” ligado a um Cinema Display de 27”. A nível de software, é muito simples, uso exclusivamente o Sketch para desenho gráfico, o próprio Sketch 2 foi desenhado no Sketch 1, era a melhor forma de perceber quais as suas necessidades, e de as desenvolver.

Que conselhos dás a quem queira desenvolver aplicações para Mac e iOS?
Que não desista, e que não espere ganhar tudo à 1º. A Bohemian está no mercado há 5 anos, e nesses 5 anos ganhámos 2 ADA’s (o Fontcase 1 também foi premiado em 2009, mas na categoria de estudante, o Pieter ainda se encontrava no último ano de universidade).

Mas mais importante, é que não esteja à espera de saber mais, um estudante deve ser capaz de começar algo antes de se formar, esperar pelo canudo é esperar que as coisas caiam do céu, e eu garanto que elas não caiem. Deve-se olhar para a faculdade como um caminho para melhorarmos, e não como uma definição do que somos. Fora de Portugal, grande parte dos Designers/developers que são hoje reconhecidos, começaram da mesma forma que eu, aos 15/16 anos fazendo as coisas mais inúteis e irrelevantes que se possa imaginar, mas começaram, esse tipo de experiência é o mais importante, é o que nos define.

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